sábado, 23 de junho de 2018

AVENIDA DO CONTORNO

A Avenida 17 de Dezembro ou Avenida do Contorno, nome adotado pelo próprio Aarão Reis foi traçada pela Comissão Construtora da Nova Capital para ser o limite entre a Zona Urbana e a Zona Suburbana. Ela dividiria a área reservada para os profissionais liberais, comerciantes e funcionários públicos da área destinada à população de menor poder aquisitivo. Dentro dos limites da Avenida tudo foi pensado e projetado para dar suporte ao crescimento racional e ordenado da nova capital a começar pelo traçado que distingue a zona urbana das demais regiões da capital até os dias atuais, além dos serviços de água, esgoto, calçamento até a arborização e recolhimento de lixo entre outros serviços. Nos primeiros anos do Século XX já era visivel a extrapolação dos limites da Contorno pela malha urbana da capital, principalmente nas colônias agrícolas que circundavam a zona urbana. Um dos motivos desse crescimento à partir dos subúrbios da capital era de que em toda a zona limítrofe com a Avenida do Contorno as leis que regulamentavam a delimitação dos lotes para a construção eram bem mais brandas do que os critérios definidos pela Prefeitura para as construções na zona urbana, que impunha inúmeras restrições para a liberação de uma determinada obra. Esse fato aliado à especulação imobiliária que inflacionou os terrenos dentro da zona urbana além da necessidade de se povoar as vastas áreas suburbanas foram os principais motivos para a lenta ocupação da dita zona além de atrasar a abertura e a finalização de diversas ruas e avenidas, entre elas a própria Contorno.
A Avenida, até o inicio dos anos 20 exibia todo o seu traçado apenas nas Plantas Cadastrais da capital. Ela era na verdade retalhos que circundavam a zona urbana. A Avenida existia em fragmentos na área central, no bairro Floresta e em partes dos bairros Serra, Santa Efigênia e Funcionários. Nos outros trechos a Avenida era apenas uma estrada estreita de terra ou mesmo uma trilha, como nas imediações dos bairros Cidade Jardim e Santo Agostinho, regiões que foram urbanizadas e ocupadas anos mais tarde.
Sobre a Avenida disse o chefe da Seção de Obras da Prefeitura em 1920 “A Avenida do Contorno não está ainda aberta e regularisada de modo a contornar, de facto, a cidade; mas sei-o-á um dia e, portanto, precisa ser conservado o seu traçado primitivo”. A partir de 1920 a finalização da Avenida passou a ser prioridade por parte da Prefeitura pois a cidade apresentava uma expansão na Zona Suburbana, principalmente nas áreas limítrofes com a Contorno. Muitos trechos da Avenida simplesmente haviam virado quarteirões devido a falta de uma Seção de Cadastro eficaz da Prefeitura que permitiu a ocupação irregular em diversos trechos da Avenida. Podemos citar como exemplo o trecho da Avenida do Contorno no cruzamento com a Avenida Carandaí e parte da Avenida Araguaia (Francisco Sales). A Avenida foi projetada pela Comissão Construtora para ter cerca de trinta e cinco metros de largura, mas em 1920 tinham apenas cinco metros de largura devido à existência ai de um lote irregular “vendido” pela Prefeitura no inicio do Século. Nesse caso a Planta Cadastral foi simplesmente ignorada e para continuar a abertura da Avenida foi necessário um acordo com o “dono” do terreno, não sem ônus para a Prefeitura. Ainda nessa década a Avenida foi regularizada entre a área central e a Avenida Barbacena e no fim da década regularizada nos bairros de Santa Tereza e Santa Efigênia.

Durante a década de 30 até a sua conclusão já nos anos 40 a Avenida foi aberta e regularizada em alguns trechos entre o bairro Funcionários e o Barro Preto. Foi nesse trecho que a Avenida sofreu uma drástica alteração em relação ao seu traçado projetado pela Comissão Construtora. Como podemos ver na imagem abaixo o trecho compreendido entre a Rua Rio de Janeiro e a Rua Ouro Preto são na verdade trechos da Avenida Barbacena e Rua Antônio de Albuquerque, trechos estes que foram incorporados à Avenida do Contorno quando da sua abertura.
Mas qual teria sido o motivo da mudança de seu traçado? Em minhas pesquisas relacionadas a esse assunto não encontrei nada que justificasse essa mudança. Fez-se necessária então a analise das Plantas confeccionadas pela CCNC. Nelas o Córrego do Leitão tinha, nas proximidades da Fazenda do Leitão uma grande área brejosa e essa área seria exatamente cortada pela Avenida segundo a Planta de 1895. Como a Comissão Construtora não executou as obras nessa região ela se tornou posteriormente uma das colônias Agrícolas que existiram na infante capital de Minas, a Colônia Afonso Pena e mesmo após a sua incorporação à malha urbana de Belo Horizonte essa região continuou pouco povoada.
Na época em que se resolveu dar continuidade à Avenida do Contorno certamente houve um estudo da área em que deveria ser aberta a Avenida e acredito que três motivos levaram o Poder Público a relocar a Avenida suprimindo 12 quarteirões que seriam construídos dentro da zona urbana e que diminuiu consideravelmente a sua área. O primeiro motivo é o fato de que seria muito oneroso e dispendioso realizar uma drenagem das áreas brejosas do Leitão, áreas que até os dias atuais, mesmo estando totalmente ocupadas, saneadas e impermeabilizadas continuam apresentando sérios problemas nos períodos chuvosos, um retrato do desprezo e negligência dos órgãos responsáveis ao permitir a ocupação desenfreada nas vertentes do Córrego, sem levar em consideração a sua topografia além que, se esse trecho tivesse sido aterrado e nivelado quando da abertura da Avenida Prudente de Morais, na canalização do Córrego em 1970 os problemas seriam bem menores. O segundo motivo é que nessa época já existia a Rua Joaquim Murtinho, aberta exatamente no local em que deveria passar a Avenida e que já contava com diversas casas. Remanejar a população ai residente e alargar a rua certamente seria mais oneroso para a Prefeitura do que mudar o traçado da Avenida para uma região ainda desabitada. O terceiro motivo é que já existia uma consciência da necessidade de preservação da sede da Fazenda do Leitão, ultimo casarão remanescente da Freguesia do Curral del Rey. A Avenida, se aberta conforme a Planta Cadastral incluiria o casarão dentro dos limites da Zona Urbana e assim selaria a sua demolição.
Conforme já foi dito foi feita uma grande mudança nos arruamentos dessas Seções, ao mesmo tempo em que eram realizadas obras de infra-estrutura sanitária no vale do Córrego do Leitão área de extrema importância para a Prefeitura devido à arrecadação de impostos, entre outros fatores. Após a relocação da avenida entre as ruas Rio de Janeiro e Ouro Preto ela foi concluída no inicio dos anos 40 permitindo a expansão de uma área importante da capital, ocupada a partir da gestão JK pela população de maior poder aquisitivo e proporcionando a melhoria do acesso a toda a Zona Suburbana da capital.

A Avenida do Contorno é apenas uma das diversas vias que sofreram modificações no seu traçado original devido às construções irregulares ou por necessidade de se acompanhar um curso d’água. No caso da Contorno a mudança foi mais drástica, a tal ponto de extinguir diversos quarteirões da Zona Urbana que na verdade, em relação a arrecadação de impostos e venda de lotes não fez diferença pois a área suprimida se tornou anos mais tarde uma área nobre da capital, conservando-se assim até os dias atuais. Ao modificar acertadamente o traçado da Avenida desviando-se da área brejosa do Córrego do Leitão a Prefeitura evitou um problema que ainda existe na área no período chuvoso, mas que certamente seria muito mais grave caso a Avenida tivesse sido aberta segundo o traçado original devido ao grande fluxo de veículos que passam diariamente pela Avenida.


Leia mais: https://bairrosdebelohorizonte.webnode.com.br/avenidas-e-ruas-de-bh-/

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